Vinho de Caixinha

MINIMALISM

O documentário começou com cenas chocantes, parecia que eram pessoas correndo para salvar suas vidas, mas na verdade era só a abertura dos portões no Black Friday americano. Eu poderia começar esse texto com vários tópicos que o documentário aborda, mas nesse aqui vou falar sobre o que eu senti na pele.

Quando eu fui morar nos Estados Unidos eu já fui com uma mentalidade de filme, eu queria ser cheerleader, queria levar aquele saquinho de papel com meu almoço pra escola, queria ver jogos de esportes Americanos,e no final percebi que queria muito mais experiências do que coisas.

O americano sempre foi muito trabalhador, eles prezam por isso, o único problema é que de uns tempos pra cá a recompensa por tanto trabalho são coisas. Trabalhar para comprar algo. É aquele velho ditado “Compramos coisas que não precisamos, com dinheiro que nem tempos, para impressionar pessoas que não gostamos.” Graças a Deus a minha experiência lá foi super tranquila nesse aspecto, tínhamos um carro modelo antigo e morávamos numa “townhome”, e na escola tínhamos contato com pessoas que viviam melhor e também, por ser uma escola pública, com pessoas que viviam pior.

Mas se tem uma coisa que eu percebi que move o americano, e isso percebi só depois que morei na Itália, é o tal do HUSTLE. O tal do “time is Money”. Me diz, se tempo é dinheiro, você saiu no prejuízo ao contemplar um por do sol? Para eles, sim.

Anos depois me encontro morando em uma das cidades mais antigas de nossas histórias civilizadas, Roma. Roma é charmosa, é cheia de detalhes, é uma senhora. Uma senhora e tanto. Foi em Roma que tive que me livrar da minha timidez, e foi em Roma que percebi que a felicidade não vem de COISAS. Eu vivia simples, morava em uma Casa per Ferie que era dirigida por freiras, tinha uma suíte, e a sala e cozinha eram áreas comuns, e comigo moravam várias garotas, eu me sentia na verdade em Chiquititas (risos). E meu pai me mandava uma mesada, que não era muito, mas eu já estava no exterior estudando o que eu amava, então não achava nem justo pensar que o valor era pouco. Mas isso nem foi problema, depois de alguns meses lá eu me via sempre feliz, e sempre em estado de apreciação.

Todo dia no caminho para a aula eu passava naquele velho caminho, e todo dia eu admirava o mármore do portal do Vaticano, que era o mesmo do meio fio, as árvores diferentes que tinham além do muro, a variedade de gente que ficava na fila do museu, as pessoas que tomavam seu café com um livro, e enfim reparava em tudo e pensava- quantas pessoas já não passaram por aqui durante todo esse tempo de história? Como será que era Roma trezentos anos atrás?

Enfim, Roma me ensinou a felicidade em um cair de tarde, com uma canga na grama, boas amigas, e um vinho de caixinha, (que custa dois euros, e na minha opinião era uma delícia).

Sei que comecei falando sobre o documentário, mas antes de falar sobre outros assuntos que eles expõem, quis falar um pouco sobre como morar nesses dois lugares me fez quem eu sou hoje. Os americanos continuam no seu hustle, querendo sempre trabalhar mais, para ganhar mais, para comprar mais, e isso tudo sem nem reparar na paisagem ou até mesmo no próximo. Os europeus em contrapartida, são tranquilos, inclusive são bem “take your time”, aprecie, tire uma fotografia mental desse momento, porque é só isso que a gente leva com a gente.

There are no comments yet. Be the first and leave a response!

Leave a Reply